domingo, 28 de março de 2010

Um vendaval loiro e sulista chamado Sandra Bullock


'Um Sonho Possível', que deu o Óscar à actriz, estreia-se hoje em Portugal.

Há uma cena irresistível em Um Sonho Possível, de John Lee Hancock, em que Leigh Anne Tuohy, a personagem interpretada por Sandra Bullock, uma mãe de família sulista, é ameaçada e tratada de "bitch" por um gangster negro.

A meio caminho do carro, Leigh Anne volta de súbito para trás e confronta o meliante chamando--lhe "bitch" de volta, dizendo que conhece o procurador distrital, pertence a um grupo de oração, é membro da National Rifle Association e anda sempre com uma pistola no carro. Por isso, o melhor é ser ele a ter a cuidado. É o momento "Dirty" Harry de Bullock.

Leigh Anne Tuohy, que deu a Sandra Bullock o Óscar de Melhor Actriz, não é uma personagem inventada por um qualquer argumentista de Hollywood. Ela e a sua família - sulista, endinheirada, cristã e republicana - existem mesmo.

Naturais de Memphis, os Tuohy acolheram no seu seio e adoptaram um enorme e plácido rapaz negro de 16 anos chamado Michael Oher, filho de mãe viciada em crack e de pai incógnito, puseram-no num colégio privado e potenciaram-lhe os dotes inatos de jogador de futebol americano. Oher conseguiu uma bolsa de estudo desportiva para a universidade e, reconhecido como uma das novas estrelas da modalidade, foi contratado em 2009 para jogar numa equipa da National Footbal League.

A história, além de inverosímil, parece impossivelmente cor-de- -rosa. Mas é verdadeira de fio a pavio e foi contada pelo jornalista Michael Lewis, o "descobridor" da família Tuohy, no livro The Blind Side: Evolution of a Game, que está na base do filme.

Algumas das críticas feitas nos EUA a Um Sonho Possível salientavam o facto de os Tuohy serem "conservadores" e não "liberais" (no sentido americano de "de esquerda") e por isso o filme ser "paternalista". Como se só estes tivessem o exclusivo da identificação dos males sociais e do amor ao próximo - ainda por cima, no caso, um rapaz negro do ghetto - e aqueles tivessem de se confinar ao esterótipo do fanático religioso, tapado, racista e reaccionário, aliás tão querido à indústria cinematográfica e televisiva americana.

Leigh Anne Tuohy, mãe de família, empresária e doente de futebol, é interpretada por Sandra Bullock como um vendaval loiro, uma mulher senhora do seu nariz, decidida, cheia de sentido de humor e protectora dos seus, que enfrenta e intimida desde professores cépticos a traficantes de droga, passando por rednecks ululantes.

Bullock mete-se na personagem como meia de seda em perna bem torneada. E grande parte do prazer que tiramos de Um Sonho Possível, realizado por Hancock qual funcionário público da câmara de filmar, é da sua interpretação vigorosamente optimista, chispante e bem-humorada, nem por isso muito indutora da fungadela profunda ou da explosão dos sacos lacrimais.

Claro que Sandra Bullock não é Meryl Streep nem Jessica Lange, mas há que dar o seu a seu dono. A bordo de Um Sonho Possível e neste registo de comédia com uma leve demão dramática, ela é senhora e comandante. E deve o papel que a conduziu ao Óscar de Melhor Actriz a Julia Roberts, que o tinha recusado. Tal como há 15 anos Demi Moore havia rejeitado o de Enquanto Dormias, que permitiu a Bullock transformar-se numa estrela. Às vezes, as sobras de uns são o bodo de outros.

Um comentário:

  1. Assisti ao filme e fiquei emocionado, me fez refletir sobre o mundo e as pessoas!!!
    rivaldosantana@yahoo.com.br

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